Cozinha Brasileira · Belo Horizonte, MG

Bifão do Agostinho: o prato que tem nome próprio

Por gastronomizaê 12 de julho de 2023 Preço: alto ⭐⭐⭐⭐☆
Bifão do Agostinho: o prato que tem nome próprio

Quando um prato recebe um nome próprio no cardápio, é porque alguém decidiu que ele tem personalidade suficiente para isso. O Bifão do Agostinho, na Cozinha Santo Antônio, carrega esse nome com justeza.

O corte chega fatiado sobre prato listrado preto e branco com borda dourada — uma louça que tem presença sem gritar. As marcas de grelha estão visíveis nas fatias, aquelas listras paralelas que indicam temperatura alta e contato direto com ferro quente. A carne foi cortada contra as fibras: cada fatia cede limpa, sem rasgar.

Do lado, a farofa amarela — aquela textura solta e úmida que acontece quando a farofa foi feita com manteiga generosa, não com óleo. Legumes assados coloridos completam o prato: o amarelo da abóbora, o roxo da beterraba, o verde de algum brócolis levemente caramelizado nas bordas. A cerveja em taça ao lado não é detalhe — ela é parte da refeição, o refresco necessário para a carne gordurosa.

Um prato com nome próprio carrega uma promessa implícita de que tem dono e tem história. O Bifão do Agostinho não decepciona nenhuma das duas.

A Cozinha Santo Antônio fica no bairro homônimo, em Belo Horizonte — uma região que mistura casas antigas, comércio de bairro e restaurantes que não precisam de circuito turístico para lotar. Esse endereço já informa a proposta: não há esforço para ser visto, há esforço para ser bom. O ambiente é o de quem foi montado para funcionar décadas, não para durar uma temporada.

O bifão em si merece atenção além da apresentação. A escolha do corte importa — aqui não é contrafilé de vitrine de açougue moderno, é carne com gordura suficiente para sobreviver à grelha sem ressecar. A temperatura certa na chapa é o que separa carne grelhada de carne passada: exterior com cor e crosta, interior ainda com umidade. Esse equilíbrio, que parece simples, é onde a maioria dos restaurantes erra por pressa ou por descuido.

A Cozinha Santo Antônio tem a habilidade de tratar carne brasileira com técnica sem apagar a brasilidade. Não há sous-vide aparente, não há o vocabulário importado que às vezes invade as cozinhas contemporâneas sem motivo. Há carne na chapa, farofa e legumes — a santíssima trindade do almoço de domingo elevada a prato de restaurante sem perder a origem.

A farofa merece menção separada. Em muitos restaurantes ela é o acompanhamento que ninguém pediu e ninguém vai notar. Aqui foi pensada: a manteiga que a liga tem presença no sabor, a textura solta indica que foi feita na hora, e os grumos são o sinal de que houve atenção ao processo. Farofa ruim fica seca e sem sabor. Farofa boa vira parte integrante do prato — e aqui, ela vira.

Agostinho, quem quer que seja, seria feliz.

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